Representações gráficas e desenho técnico
É sabido que, desde os primórdios da humanidade, a expressão e comunicação de ideias é feita sob a forma de representação gráfica. Inclui-se nessa prática a representações simbólicas do espaço construído.
[Museu das Civilizações da Anatólia, Ancara]
[Parco Nazionale delle incisione rupestre di Naquane, Itália]
No entanto, estas representações simbólicas não são consideradas desenhos de arquitetura no seu sentido específico, mesmo que a estratégia de utilizar projeções ortogonais seja um recurso próprio da representação em arquitetura, pois se tratam de representações da realidade, não uma antecipação de algo a ser produzido.
O desenho técnico, seja mecânico, de arquitetura ou engenharia, é necessariamente um desenho operativo, ou seja, seu propósito é a concretização da ideia projetada, e após sua confecção segue-se uma operação de fabricação e/ou montagem.
Projeção retiniana
A visão humana envolve uma projeção retiniana que é bidimensional. A sensação de profundidade resulta, dessa forma, de dois processos simultâneos:
- da percepção da diferença entre os tamanhos aparentes que objetos sabidamente iguais possuem quando estão próximos ou distantes do observador.
- das pequenas diferenças de projeção retiniana de ambos os olhos, que são processadas pelo cérebro e geram o que chamamos de visão estereoscópica ou binocular.
Mudanças de posicionamento do observador em relação aos objetos observados resultam em distorções na percepção do tamanho e do posicionamento dos objetos.
A projeção, como veremos, é uma estratégia para transpor o espaço tridimensional do mundo concreto para o espaço bidimensional da superfície de desenho.
Alguns desenvolvimentos históricos relevantes
Perspectiva linear ou projeção cônica
Primeira técnica de representação gráfica formatada com bases científicas.
A representação em perspectiva possibilitou a criação de imagens semelhantes àquelas que apreendemos através do olhar.
Filippo Brunelleschi (1377-1446)
Leon Battista Alberti (1404-1472)
A projeção cônica é muito usada quando a percepção de profundidade é relevante, mas pouco se presta a tradução quantitativa — por isso é usada em ilustrações, artes plásticas e representação de arquitetura. Para representações que permitam construir coisas (engenharia, arquitetura, design), é preciso minimizar as distorções da projeção retiniana.
Geometria Descritiva e projeção ortográfica
Primeiro método que possibilitou a realização de desenhos de forma universal e rigorosa.
A ciência que nos permite representar sobre um plano as formas do espaço. Através da GD podemos desenhar vistas auxiliares, cortes, secções, rebatimentos, rotações, interseções de planos e sólidos, mudança de planos de projeção, obter medidas de verdadeira grandeza (V.G.), de distâncias, ângulos e superfícies, e desenhar e calcular volumes a partir de projeções ortogonais.
O procedimento sistematizado por Monge presume um observador no infinito a partir do qual são emitidos raios visuais paralelos que projetam uma representação em um plano que lhes é perpendicular.
Esse processo permite uma primeira forma de representação de objetos no espaço tridimensional sobre uma superfície bidimensional. A projeção executada com esse feixe de raios paralelos faz que as distorções perspectivas próprias da projeção cônica não aconteçam, permitindo uma representação muito fiel do objeto e independente da distância do observador.
A introdução de um segundo plano, também com raios de projeção paralelos entre si e perpendiculares ao plano de projeção, permite que novas informações sejam registradas para o caso de objetos sólidos.
As vantagens da utilização de um segundo plano de projeção foram rapidamente percebidas, adotadas e sistematizadas. Esse método é a base para a construção de um procedimento técnico bastante utilizado na geometria descritiva: a épura.
A utilização de um terceiro plano de projeção perpendicular aos dois primeiros torna possível a geração por projeção ortográfica de três vistas, o que permite a compreensão de detalhes que não seriam apreendidos apenas com dois planos.
Desenho técnico
A partir da Geometria Descritiva, aliada ao desenho geométrico, constituiu-se uma linguagem gráfica de caráter universal, chamada Desenho Técnico.
O desenho técnico foi ferramenta imprescindível no processo de industrialização; constitui-se num meio conciso, exato e inequívoco para comunicar a forma dos objetos; daí a sua importância na tecnologia, face à notória dificuldade da linguagem escrita ao tentar a descrição da forma, apesar a riqueza de outras informações que essa linguagem possa veicular.
Características do Desenho técnico
- caracterizado pela sua normatização e pela apropriação que faz das regras da geometria descritiva;
- utilizado como base para a atividade projetual em disciplinas como a arquitetura, o design e a engenharia;
- meio de comunicação entre quem projeta e quem fabrica → nele constam todas as informações referentes à especificação de formas, dimensões, posicionamento e materiais do produto a ser fabricado.
Desenho arquitetônico
O desenho arquitetônico é uma especialização do desenho técnico voltada para a representação gráfica de projetos de edificações, servindo como guia para construção, aprovação em órgãos públicos e manutenção. Utiliza como base as normas técnicas do desenho técnico e normativas especializadas que as complementam.