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Desenho técnico · Noções preliminares

Procedimentos básicos de desenho técnico

Usada em · Desenho, projeto, construção e BIM

MUNIZ, César; MANZOLI, Anderson. Desenho Técnico. 1. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2015. pp. 15–51.

Muniz e Manzoli - 2015 - Desenho Técnico.pdf




Visão geral

Objetivos

Neste capítulo, vamos conhecer os componentes básicos da representação gráfica. Nosso objetivo central é fundamentar o manuseio de instrumentos tradicionais de desenho para facilitar a execução de procedimentos básicos frequentes de desenho geométrico. Vários elementos aqui tratados pertencem ao currículo do ensino fundamental e médio, que, muito provavelmente, foram sendo esquecidos ao longo do tempo pela falta de prática. Além dos procedimentos já conhecidos de muitos, outros processos mais complexos também serão apresentados.


Estratégia de trabalho

A estratégia que utilizaremos será essencialmente prática. Por essa razão, é importante que o material básico de desenho técnico esteja disponível já nos primeiros momentos da leitura deste capítulo. Tenha consigo um par de esquadros, sendo um deles de 45° e outro de 30°/60° (figura 2.6). Um bom compasso, diferente daqueles que eram utilizados no ensino fundamental também é importante. Finalizando, papel em branco (formatos A4 ou A3), lapiseiras 0,5 com grafite de dureza intermediária F ou HB e uma borracha macia completam o conjunto de instrumentos necessários.

Todos os conceitos são apresentados brevemente com ilustrações e pequenos textos. À medida que os conceitos vão se tornando mais complexos, procedimentos técnicos são apresentados sob a forma de uma sequência ilustrada de passos. Sugerimos que todos os exercícios sejam reproduzidos cuidadosamente. Isso garantirá, no futuro, trabalhos bem construídos.


Retas: construção, subdivisão e transporte de medidas

Construção

O uso adequado dos instrumentos evita a imprecisão, a lentidão, as dificuldades na construção do desenho e, consequentemente, a baixa qualidade da precisão gráfica. O desenho geométrico é basicamente feito por retas e pontos em um plano bidimensional. Sua principal função é auxiliar em problemas de geometria plana.

Para facilitar o entendimento, é necessário criar algumas definições e convenções:


Pontos: não possuem dimensão e são obtidos pela interseção entre duas linhas.

Definição de ponto
Definição de ponto

Linhas: são uma sequência de pontos em comprimento e sem espessura. Se ligarmos dois pontos no menor comprimento possível teremos uma reta.

Definição de linha
Definição de linha

O conceito de reta (r) é que ela segue para o infinito em ambas as direções.

Definição de reta
Definição de reta

Ao considerarmos um ponto qualquer que pertença à reta (r), esta será dividida em duas semirretas com origem a partir deste ponto definido (O). Habitualmente, define-se o ponto com letras maiúsculas e o nome da reta com letra minúscula.

Definição de semirreta
Definição de semirreta

Quando temos dois pontos que pertencem à mesma reta, o trecho compreendido entre eles denomina-se segmento de reta.

Definição de segmento de reta, AB.
Definição de segmento de reta, AB.

Os principais instrumentos utilizados para desenhar as linhas e os pontos serão os esquadros e os compassos.

Esquadros comerciais
Esquadros comerciais

Os esquadros são utilizados para o traçado de linhas horizontais, verticais, e também servem como apoio para o traçado de retas paralelas ou perpendiculares a uma determinada direção. Isso pode ser realizado deslizando-se um esquadro apoiado sobre o outro, que permanece fixo como uma guia.

Todo o desenho técnico fundamenta-se na manipulação correta, ágil e precisa desses instrumentos. Por essa razão, embora alguns dos procedimentos iniciais pareçam, a princípio, muito elementares, a destreza que pode ser adquirida nestes exercícios será decisiva para a qualidade de trabalhos mais complexos.


Subdivisão de um segmento de reta

Para dividirmos uma reta em um dado número de partes iguais ou proporcionais existem várias técnicas.

1) Subdivisão de um segmento de reta em 2 partes


1º passo: Inicialmente divida um segmento de reta em duas partes iguais, usando o esquadro e o compasso.


2º passo: Posicione a ponta-seca do compasso em A, utilizando uma abertura um pouco maior que a metade do segmento AB. Faça um arco em cima e embaixo do segmento AB.


3º passo: Com o compasso, mantendo a mesma abertura, posicionando a ponta-seca em B, cruze os arcos em cima e embaixo.


4º passo: Trace a reta que passa pelo cruzamento em cima e embaixo dos arcos.


O segmento de reta AB ficou subdividido ao meio nos segmentos AM e MB, de mesmo comprimento. Esta igualdade de comprimentos está representada pelos dois pequenos traços.


2) Subdivisão de um segmento de reta em N partes

Para subdividirmos um segmento em 4, 8, 16… partes, basta repetir o procedimento inicial e dividir cada segmento ao meio novamente. Para dividir o segmento em uma quantidade n qualquer, devemos proceder da seguinte forma:


1º passo: Trace o segmento de reta a ser dividido. No exemplo, n=5.


2º passo: Faça uma reta auxiliar, com origem em um dos extremos da reta, com um ângulo qualquer, não muito acentuado.


3º passo: Com o compasso em abertura constante, faça na semirreta r cinco arcos sucessivos, sempre com a ponta-seca no cruzamento anterior.


4º passo: Ligue o cruzamento do último arco ao outro extremo do segmento de reta B, criando uma direção B5.


5º passo: Coloque um esquadro ligando a reta B5.


6º passo: Apoie sobre esse esquadro o segundo esquadro, criando uma guia para o primeiro deslizar.


7º passo: Deslize o primeiro esquadro no segundo e vá marcando, no segmento AB, os pontos de cruzamento.


8º passo: Após cruzar o último arco, retire os esquadros; o segmento AB estará com as marcações de divisão.

Síntese do procedimento.
Síntese do procedimento.
A semirreta AB ficou dividida em cinco partes iguais.
A semirreta AB ficou dividida em cinco partes iguais.

Transporte de medidas

Copiar ou transportar medidas de arcos, segmentos de reta e outros elementos gráficos é um dos procedimentos mais frequentes no dia a dia do desenhista técnico, realizado com o compasso. Vamos transportar o segmento AB para a reta r.

3) Transporte de medidas


1º passo: Ponta-seca do compasso em A, abertura até B, fixe a abertura.



2º passo: Ponta-seca em um ponto O escolhido livremente, mantendo a mesma abertura, marque na reta r o arco.

A medida do segmento AB foi transportada para a reta r.


4) Soma de medidas

Operações como soma e subtração de medidas podem ser feitas transportando os segmentos para uma reta suporte. Vamos somar e subtrair a reta AB com a reta CD.


1º passo: crie uma reta suporte r.


2º passo: transporte os segmentos AB e CD para a reta suporte r.


3º passo: no caso de soma, escolha a abertura CD; com ponta-seca em B, trace um arco no sentido oposto a A na reta suporte.



4º passo: os segmentos AB e CD estão somados na reta suporte r, dando origem ao segmento AD.


5) Subtração de medidas


1º passo: para a subtração, após o transporte do segmento AB, o segmento CD deve ser colocado no sentido de A.

2º passo: o segmento CD foi subtraído do segmento AB, dando origem ao segmento AD.

Resultado da subtração
Resultado da subtração

2.3 Retas: paralelas e perpendiculares

Os principais esquadros do mercado permitem o traçado imediato de linhas em ângulos predeterminados (30°, 45°, 60°, 90° e outros). Combinações de esquadros apoiados uns nos outros permitem outros ângulos.

6) Linhas paralelas com esquadros


1º passo: coincida uma aresta do esquadro com a reta.


2º passo: fixe o esquadro de 60° no esquadro de 45°.


3º passo: mantendo o esquadro de 60° fixo, o de 45° pode ser movimentado livremente, traçando as paralelas desejadas.

Deslizando um esquadro apoiado em outro
Deslizando um esquadro apoiado em outro

7) Linhas paralelas com compasso

Também é possível traçar linhas paralelas com auxílio de um compasso:

1º passo: suponha uma reta r e um ponto C fora dela; trace uma reta paralela à r passando por C.


2º passo: com o compasso, ponta-seca em C, raio livre mas suficiente para cruzar a reta, trace um arco que cruze a reta em 1.


3º passo: com a mesma abertura, ponta-seca em 1, trace o arco que passa por C até cruzar a reta no ponto 2.


4º passo: com a ponta-seca em 2, faça a abertura até C.



5º passo: com a ponta-seca em 1, mesma abertura de 2 até C, cruze o primeiro arco, gerando o ponto 3.



6º passo: a reta paralela à reta r será a reta que passa pelos pontos 3 e C.

Resultado
Resultado

8) Linhas perpendiculares com esquadros

1º passo: posicione o esquadro de 60° com a maior aresta fixa na posição desejada.

2º passo: posicione o esquadro de 45° com a maior aresta junto ao esquadro de 60°.

3º passo: desenhe as retas deslizando o esquadro de 45°.

Posicionando esquadros para retas perpendiculares
Posicionando esquadros para retas perpendiculares

9) Linhas perpendiculares com compasso

Também é possível traçar linhas perpendiculares com o compasso. Sejam a reta r e o ponto C fora dela; desejamos traçar uma perpendicular à r passando por C.


1º passo: com o compasso, raio qualquer que corte a reta, trace um arco cruzando a reta em dois pontos: 1 e 2.


2º passo: com a ponta-seca em 1, faça um arco abaixo do primeiro.


3º passo: com a ponta-seca em 2, mesma abertura, cruze o primeiro arco, gerando o ponto 3.


4º passo: ligue o ponto 3 ao ponto C, desenhando a perpendicular à reta r.

Linha perpendicular obtida com uso de compasso
Linha perpendicular obtida com uso de compasso

10) Linhas perpendiculares com compasso, com ponto sobre a reta

Processo semelhante pode ser usado se o ponto C estiver sobre a reta. Sejam a reta r e o ponto C pertencente a ela; queremos traçar uma perpendicular à r passando por C.


1º passo: com o compasso, ponta-seca em C, raio qualquer, trace dois arcos cruzando a reta em 1 e 2.


2º passo: com a ponta-seca em 1, faça um arco.


3º passo: com a ponta-seca em 2, mesma abertura, cruze o primeiro arco, gerando o ponto 3.


4º passo: ligue o ponto 3 ao ponto C, criando a perpendicular à reta r.

Reta perpendicular a um ponto interno de uma reta
Reta perpendicular a um ponto interno de uma reta

Ângulos: construção, subdivisão e transporte de medidas

Ângulos são entidades gráficas extremamente comuns em desenho técnico. O ângulo é a reunião de duas semirretas distintas com uma origem comum.

Representação de um ângulo
Representação de um ângulo

Construções de ângulos

11) Construção de ângulo de 60º

Podem ser construídos com o uso de compasso, baseando-se num ângulo de 60° e seus múltiplos. Como construir um ângulo de 60° na reta r com origem em O:


1º passo: coloque a ponta-seca no início da semirreta e faça um arco que cruze a reta r, criando o ponto 1.


2º passo: com a mesma abertura, ponta-seca em 1, trace um arco que cruze o anterior, criando o ponto 2.


3º passo: ligue o ponto O ao ponto 2, gerando o ângulo de 60°. Os pontos O, 1 e 2 delimitam um triângulo equilátero.

Obtendo o ponto 2
Obtendo o ponto 2

12) Construção de ângulo de 120º

Para um ângulo de 120°, basta fazer mais um transporte de arco de 2 para um cruzamento 3.


Combinando os esquadros de 45°, 30° e 60°, podemos construir diversos ângulos.

Visão geral dos ângulos construídos com dois esquadros
Visão geral dos ângulos construídos com dois esquadros

Os esquadros possuem, normalmente, os ângulos apresentados na figura abaixo.

Ângulos básicos obtidos com esquadros
Ângulos básicos obtidos com esquadros

Subdivisões de ângulos

13) Bissetriz de um ângulo qualquer

A bissetriz divide um ângulo em duas partes iguais. Dado um ângulo qualquer, vamos dividi-lo em dois ângulos iguais.

Preparando a bissetriz de um ângulo dado
Preparando a bissetriz de um ângulo dado

1º passo: coloque a ponta-seca no início do ângulo, faça um arco cruzando as semirretas, criando os pontos 1 e 2.


2º passo: com a ponta-seca em 1, faça um arco; com a mesma abertura em 2, cruze o arco anterior.


3º passo: a reta que passa pelo ponto O e pelo ponto 3 é a bissetriz do ângulo dado.

Bissetriz de um ângulo dado
Bissetriz de um ângulo dado

14) Construção de ângulo de 30º

Para um ângulo de 30°, fazemos um ângulo de 60° e traçamos sua bissetriz.

Ângulo de 30° obtido pela bissetriz do ângulo de 60°
Ângulo de 30° obtido pela bissetriz do ângulo de 60°

15) Construção de ângulo de 90º

Para um ângulo de 90°, fazemos um ângulo de 120° a partir de dois ângulos de 60° e traçamos a bissetriz do segundo.

Construindo um ângulo de 90°
Construindo um ângulo de 90°

Assim, podemos construir ângulos de 15°, 75°, 135° e outros, a partir do ângulo de 60° e suas divisões.


Divisão aproximada em três partes

16) Divisão de um ângulo em três partes

Dado um ângulo qualquer, vamos dividi-lo em aproximadamente três ângulos iguais.


1º passo: faça um círculo de raio qualquer cruzando o arco nos pontos 1 e 2. Prolongue a semirreta até cruzar o círculo, formando os pontos 3 e 4.


2º passo: trace a bissetriz e transporte a distância do raio da circunferência sobre ela, gerando o ponto A.


3º passo: ligue o ponto A aos pontos 3 e 4.


Os dois pontos criados no arco dividem, aproximadamente, o ângulo em três partes.

Resultado da divisão em três partes iguais
Resultado da divisão em três partes iguais

Divisão de ângulo em n partes iguais

17) Divisão de um ângulo em cinco partes

Dado um ângulo qualquer, vamos dividi-lo em n ângulos iguais. Para o exemplo vamos usar n = 5.

1º passo: faça um círculo de raio qualquer cruzando o arco nos pontos 1 e 2; prolongue a semirreta até cruzar o círculo, formando os pontos 3 e 4.


2º passo: com a ponta-seca em 2, abertura até 3, faça um arco; com a ponta-seca em 3, abertura até 2, cruze o arco anterior, gerando o ponto A; ligue A ao ponto 1, criando o ponto B.


3º passo: divida o segmento B2 em n partes.


4º passo: exemplo de subdivisão em cinco partes iguais.


5º passo: projete as retas saindo de A, passando pelas divisões dos segmentos, até cruzar com o arco do ângulo a ser dividido.

Figura 2.71 Subdividindo o segmento B2 em cinco partes iguais


6º passo: ligue o centro O aos pontos de cruzamento, criando a divisão do ângulo em cinco partes iguais.

Resultado da subdivisão em cinco partes iguais
Resultado da subdivisão em cinco partes iguais

2.5 Arcos: círculos, elipses e concordâncias

Círculos e elipses são figuras geométricas bastante frequentes no desenho técnico e no desenvolvimento de projetos de engenharia e arquitetura. É importante, portanto, não apenas conhecer sua aparência, mas algumas de suas propriedades geométricas e matemáticas.

Círculo e circunferência

Uma circunferência é o lugar geométrico dos pontos equidistantes de um ponto O, seu centro. O círculo é a região interna da circunferência: a circunferência é um comprimento (perímetro) e o círculo é uma área.

Figura 2.73 O círculo.


Elipse

Seção cônica obtida pela interseção de uma superfície cônica com um plano que corta todas as diretrizes dessa superfície. A soma das distâncias de cada ponto da elipse a dois pontos fixos (focos) é constante.

Definição da elipse, seus focos e a soma das distâncias aos focos
Definição da elipse, seus focos e a soma das distâncias aos focos

Concordâncias

Arcos geométricos são curvas formadas por arcos de circunferência que concordam com duas semirretas, com centros alinhados perpendicularmente. Muito usado no projeto de vias, condutores e arredondamentos entre linhas e planos.

Duas linhas tangentes determinam uma concordância quando unidas pelo ponto de tangência sem ruptura ou angulosidade.

Concordâncias e não concordâncias
Concordâncias e não concordâncias

Uma reta e um arco concordam se o centro do arco estiver perpendicular à reta no ponto de tangência.

Exemplos de concordância
Exemplos de concordância

Devemos notar na figura acima que, no ponto de encontro entre reta e arco, é possível visualizar perpendiculares passando pelo centro do arco que executa a concordância.


Dois arcos estarão em concordância quando seus centros estiverem alinhados com o ponto de tangência.

Concordância entre arcos
Concordância entre arcos

Devemos observar que, em todos os casos acima, é possível constatar o alinhamento entre o centro dos arcos e do ponto de concordância


Concordância de arco com reta

18) Tendo conhecimento do raio do arco, da reta e do ponto de tangência

19) Tendo conhecimento do centro do arco e da reta

20) Tendo conhecimento da reta, do raio e de um ponto P qualquer pertencente ao arco

21) Tendo conhecimento da reta, do ponto de tangência e de um ponto Q qualquer pertencente ao arco

Concordâncias de arco com arco

22) Arco em concordância com uma reta e outro arco, tendo conhecimento do raio e do centro de um dos arcos, da reta e do raio do outro arco

23) Tendo conhecimento do raio e do centro de um arco e apenas do centro do outro arco

Dupla concordância

24) Arco em concordância com duas retas concorrentes a 90°, tendo conhecimento das retas e do raio do arco

25) Arco em concordância com duas retas concorrentes, tendo conhecimento das retas e do raio do arco

Neste capítulo estudamos vários procedimentos de desenho utilizando ferramentas simples como esquadros, réguas e compasso. Embora hoje as ferramentas mais usadas sejam informatizadas, o conhecimento dos procedimentos tradicionais possui vantagens significativas:

  • Revela a própria essência de certos raciocínios gráficos e construtivos.
  • Possibilita uma compreensão mais abrangente de procedimentos utilizados em ferramentas informatizadas.
  • Habilita o desenvolvimento de representações mais precisas nas fases iniciais do projeto, antes mesmo de envolver computação gráfica.

Atualizado em 24/08/2026